Os químicos estão melhorando a reciclagem para manter resíduos plásticos fora do ambiente

É bom reciclar? Claro, pois há uma sensação de que garrafas de refrigerante, sacos plásticos e copos de iogurte não irão para aterros e nem jogados no ambiente. Quanto mais plástico você coloca na lixeira de recicladoras, mais você tem a sensação de que esse resíduo estará longe de aterros sanitários e dos oceanos, certo?

Um dos maiores gargalos na reciclagem de plástico é que cada material precisa ser processado separadamente. Infelizmente, os plásticos simplesmente não se misturam. Por exemplo, vejamos um recipiente de detergente de polietileno e sua tampa de polipropileno. Se você derretê-los e eu fizer uma garrafa reciclada vai ter a ingrata supressa de ter um produto quebradiço e muito muito frágil. Sob o ponto de vista da reciclagem o produto obtido será totalmente inútil.

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Portanto, mesmo que cada pedaço de lixo plástico pudesse ser facilmente reciclado, isso ainda não resolveria o problema mundial do plástico. Existem alguns problemas importantes com o funcionamento atual da reciclagem que limitam severamente a usabilidade dos materiais reciclados. a reciclagem quebra algumas das ligações químicas nas moléculas de plástico, afetando a resistência e a consistência do material. Derreter e remodelar o plástico é como reaquecer pizza no micro-ondas – basicamente, você obtém o que põe, mas não tão bom. Isso limita o número de vezes que o plástico pode ser reciclado antes de ser depositado em aterro.

É por isso que o primeiro destino dos recicláveis plásticos é uma instalação de recuperação de materiais, onde pessoas e máquinas fazem a triagem. Os plásticos separados podem ser lavados, triturados, derretidos e remodelados. O sistema funciona bem para itens simples, como garrafas de refrigerante e recipiente maiores de leite. Mas não para itens como recipientes de desodorante – onde a garrafa, a válvula e a tampa podem ser feitas de diferentes tipos de plástico. Filmes de embalagem de alimentos que contêm várias camadas de plástico diferente são particularmente difíceis de desmontar.

Infelizmente, cerca de 100 milhões de toneladas desses filmes multicamadas são produzidos em todo o mundo. Quando jogados fora, esses plásticos vão direto para aterros sanitário ou para o meio ambiente. Para resolver esse problema, engenheiro químico George Huber, da Universidade de Wisconsin-Madison e seus colegas desenvolveram uma estratégia para lidar com misturas complexas de plásticos. O processo usa uma série de solventes líquidos para dissolver componentes plásticos individuais de um produto. A estratégia é escolher os solventes certos para dissolver apenas um tipo de plástico.

A equipe de pesquisadores testou a técnica em um filme de embalagem que continha polietileno e PET, além de uma barreira plástica ao oxigênio feita de álcool etileno vinílico, ou EVOH, que mantém os alimentos frescos. Ao agitar o filme em um solvente de tolueno primeiro os pesquisadores observaram que a camada de polietileno dissolveu. O restante do filme contendo EVOH-PET foram submetidos a um solvente chamado DMSO que foi capaz de separar o EVOH. Os pesquisadores então retiraram o filme PET restante e recuperaram os outros dois plásticos de seus solventes separados, misturando-os em produtos químicos “anti-solventes”.

Esse processo de separação fracionada recuperou praticamente todo o plástico do filme original. Quando testado em uma mistura de polietileno, PET e grânulos EVOH, as lavagens com solvente recuperaram mais de 95 por cento de cada material – sugerindo que esses solventes poderiam ser usados para retirar componentes plásticos de itens mais volumosos do que filmes de embalagem. Portanto, as instalações de reciclagem poderiam usar essa técnica para separar os plásticos que compõem os recipientes de desodorante além de outros produtos de vários formatos e tamanhos.

Outra forma de separar os constituintes dos diferentes tipos de plástico é o uso de microrganismos. Várias empresas estão desenvolvendo métodos para reciclar quimicamente o PET, incluindo a francesa Carbios. A Carbios está testando enzimas produzidas por microorganismos para quebrar as moléculas do PET. Os pesquisadores da empresa publicaram  seus resultados na revista Nature. Para quebrar as moléculas do PET, os pesquisadores usaram uma enzima, chamada cutinase que geralmente é encontrada em folhas. A cutinase é uma enzima boa para quebrar a moléculas do PET em seus monômeros: etilenoglicol e ácido tereftálico. Os pesquisadores só conseguiram melhorar a eficiência da quebra das moléculas do PET depois que redesenharam o sítio ativo da enzima com a troca de alguns dos aminoácidos. O sucesso da pesquisa fez com que a Carbios está construindo uma fábrica perto de Lyon, França, para começar a reciclar PET quimicamente ainda este ano.

Fonte: Science News