Tornando as superbactérias inofensivas

Pseudomonas aeruginosa

Cientistas suíços conseguiram identificar um regulador essencial em uma bactéria, que suprime enormemente seu caráter patogênico quando não é mais expresso. Uma forma de combater a resistência aos antibióticos. A pesquisa está em andamento para encontrar um tratamento que use essa estratégia.

A resistência aos antibióticos, a capacidade das bactérias de se adaptarem aos antibióticos, é agora um dos principais desafios na luta contra as doenças infecciosas. Cerca de 700.000 pessoas morrem no mundo em consequência de uma infecção causada por bactérias resistentes. Mas como você garante que uma infecção bacteriana seja tratada sem selecionar cepas resistentes? Cientistas da Universidade de Genebra e da Universidade de Neufchâtel publicaram recentemente um estudo na revista Nucleic Acid Research que fornece uma resposta para enfrentar a resistência das bactérias. Eles identificaram em uma bactéria patogênica generalizada um regulador essencial da capacidade infecciosa da Pseudomonas aeruginosa. Quando esse regulador não está presente, a bactéria se torna muito menos virulenta, embora continue viva.

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Pseudomonas aeruginosa é um patógeno oportunista que pode causar infecções agudas ou crônicas. Esse patógeno é mais perigoso em pacientes imunocomprometidos cujo sistema imunológico não consegue combater a infecção. Nesses casos esse patógeno pode ser fatal ao paciente. Além disso, é uma bactéria conhecida por ter grande capacidade de adaptação aos antibióticos, o que dificulta trata paciente com esse patógeno. Ele também é capaz de contaminar equipamentos médicos, como ventiladores ou cateteres e, portanto, pode ser a fonte de infecção nosocomial.

Um regulador fundamental na expressão gênica

O regulador das bactérias que os cientistas estão interessados é uma enzima da família das RNA helicase, que desempenha um papel fundamental na expressão do genoma. Os genes, compostos de DNA, são primeiro transcritos em RNA, que carrega informações que precisam ser traduzidas em proteínas. A RNA helicase tem como papel se ligar ao RNA mensageiro, a fim de modificar sua estrutura e permitir a tradução, ou, ao contrário, degradá-la. Essa proteína, portanto, permite que a bactéria se adapte ao seu ambiente, modulando quais genes serão ou não expressos. Existem muitas RNA helicases, e o estudo analisou duas em particular da Pseudomonas aeruginosa. O que os pesquisadores notaram é que a ausência de uma dessas duas enzimas não mata o microrganismo, mas este não pode mais secretar certas moléculas. Sem a RNA helicase, a Pseudomonas aeruginosa não é mais capaz de produzir os fatores de virulência que causam danos no organismo do hospedeiro.

Para alcançar esse resultado, os médicos primeiro modificaram geneticamente o patógeno de modo que ele não pudesse mais sintetizar a helicase de RNA em questão. Eles então o inocularam em larvas de borboletas da espécie Galleria mellonella. Esta espécie possui um sistema imunológico inato semelhante ao dos mamíferos. Dois grupos foram formados: as borboletas infectadas com a cepa original e aquelas às quais foi administrada a versão geneticamente modificada. Enquanto o primeiro grupo experimentou mortalidade significativa, uma vez que menos de 20% dos indivíduos ainda estavam vivos 20 horas após a injeção, o segundo grupo sobreviveu 90%.

Encontrar a molécula certa

Os resultados obtidos motivam a continuação do estudo no sentido de encontrar a molécula certa para o regulador das bactérias. Os cientistas agora irão procurar em bibliotecas de moléculas as substâncias já utilizadas no tratamento de outras doenças de origem bacteriana. Em princípio, eles terão à disposição mais de 5.000 moléculas, e cada uma delas deve ser estudada para determinar se pode ter um efeito direcionado na RNA helicase. Os cientistas esperam também que outras bactérias também possam ser tratadas com essa técnica.

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