Equilíbrio químico: constante, pH, Kps, hidrólise e Le Chatelier (resumo para o ENEM)

Infográfico de equilíbrio químico com o gráfico de concentração por tempo, a escala de pH e o princípio de Le Chatelier

Por que o refrigerante perde o gás quando a garrafa fica aberta? Por que o sangue mantém o pH perto de 7,4 mesmo depois de uma refeição ácida? E por que as galinhas botam ovos de casca mais fina no verão? Todas essas perguntas têm a mesma resposta: equilíbrio químico. Neste resumo você aprende a caracterizar um sistema em equilíbrio, calcular a constante de equilíbrio, trabalhar com o produto iônico da água e o pH, entender a solubilidade dos sais e a hidrólise, prever o que acontece quando o equilíbrio é perturbado e reconhecer tudo isso no cotidiano e nas questões do ENEM.

Infográfico de equilíbrio químico com o gráfico de concentração por tempo, a escala de pH e o princípio de Le Chatelier

1. Reações reversíveis e o sistema em equilíbrio

Muitas transformações químicas são reversíveis: os reagentes formam produtos e, ao mesmo tempo, os produtos voltam a formar reagentes. Usamos a seta dupla (⇌) para indicar isso:

aA + bB ⇌ cC + dD

No início, só há reagentes, e a reação direta é rápida. À medida que os reagentes são consumidos, a velocidade direta diminui; ao mesmo tempo, os produtos se acumulam e a velocidade inversa aumenta. Em certo momento, as duas velocidades ficam iguais. A partir daí, o sistema atingiu o equilíbrio químico.

Como reconhecer um sistema em equilíbrio

  • Velocidades iguais: vdireta = vinversa.
  • Concentrações constantes: a quantidade de cada substância para de variar (mas não precisa ser igual entre reagentes e produtos).
  • Equilíbrio dinâmico: as reações não param. Moléculas continuam reagindo nos dois sentidos, na mesma taxa.
  • Sistema fechado: nenhuma substância entra ou sai. Se um gás escapa, não há equilíbrio.
  • Propriedades macroscópicas constantes: cor, pressão, densidade e temperatura não mudam mais.
  • O equilíbrio pode ser alcançado partindo dos reagentes ou dos produtos.

Pegadinha clássica: no equilíbrio, as velocidades são iguais, e não as concentrações. No gráfico de concentração por tempo, as curvas ficam horizontais (constantes), mas em alturas diferentes. Já no gráfico de velocidade por tempo, as duas curvas se encontram e seguem juntas.

Quando todas as substâncias estão na mesma fase (por exemplo, todas gasosas), o equilíbrio é homogêneo. Quando há mais de uma fase, como um sólido em contato com um gás, o equilíbrio é heterogêneo. Para revisar os princípios gerais, leia também Equilíbrio químico: descubra os seus princípios.

2. Constante de equilíbrio (Kc e Kp)

Para a reação genérica aA + bB ⇌ cC + dD, a constante de equilíbrio em concentração (Kc) é dada pela lei da ação das massas:

Kc = [C]c · [D]d / ([A]a · [B]b)

Os colchetes indicam concentração em mol/L no equilíbrio, e os expoentes são os coeficientes da equação balanceada. Três regras resolvem quase todas as questões:

  • Produtos no numerador, reagentes no denominador.
  • Sólidos e líquidos puros não entram na expressão, porque sua concentração é constante. Em CaCO3(s) ⇌ CaO(s) + CO2(g), temos Kc = [CO2].
  • K só depende da temperatura. Mudar concentrações ou pressão desloca o equilíbrio, mas não altera o valor de K.

Para gases, também se usa a constante em pressões parciais (Kp), montada da mesma forma com as pressões no lugar das concentrações. As duas se relacionam por Kp = Kc · (RT)Δn, em que Δn é a variação do número de mols de gases (produtos menos reagentes). Se Δn = 0, Kp = Kc.

O que o valor de K informa

Valor de K Interpretação
K > 1 (muito maior) No equilíbrio predominam os produtos. A reação direta é favorecida.
K ≈ 1 Quantidades comparáveis de reagentes e produtos.
K < 1 (muito menor) No equilíbrio predominam os reagentes. A reação ocorre pouco.

Exemplo resolvido: na reação H2(g) + I2(g) ⇌ 2 HI(g), as concentrações no equilíbrio são [H2] = 0,1 mol/L, [I2] = 0,1 mol/L e [HI] = 0,8 mol/L. Então:

Kc = [HI]2 / ([H2] · [I2]) = (0,8)2 / (0,1 · 0,1) = 0,64 / 0,01 = 64

Como Kc > 1, há predomínio do produto HI. Aqui Δn = 2 − 2 = 0, então Kp = Kc = 64.

Quociente de reação (Q): é a mesma expressão de K, mas calculada com as concentrações de qualquer instante. Se Q < K, a reação avança no sentido dos produtos; se Q > K, avança no sentido dos reagentes; se Q = K, o sistema já está em equilíbrio.

3. Produto iônico da água, equilíbrio ácido-base e pH

A autoionização da água

Mesmo a água pura conduz um pouco de corrente elétrica, porque uma pequeníssima fração de suas moléculas se ioniza:

H2O(l) ⇌ H+(aq) + OH−(aq)

A constante desse equilíbrio é o produto iônico da água (Kw). A 25 °C:

Kw = [H+] · [OH−] = 1,0 × 10−14

Na água pura, [H+] = [OH−] = 1,0 × 10−7 mol/L. Se um ácido aumenta [H+], a [OH−] diminui na mesma proporção, porque o produto das duas precisa continuar igual a Kw.

pH e pOH

Como essas concentrações são números muito pequenos, usamos a escala logarítmica proposta por Sørensen:

pH = −log [H+]     pOH = −log [OH−]     pH + pOH = 14 (a 25 °C)

Meio Concentrações pH a 25 °C Exemplos
Ácido [H+] > [OH−] menor que 7 suco gástrico, limão, refrigerante, vinagre
Neutro [H+] = [OH−] igual a 7 água pura
Básico [H+] < [OH−] maior que 7 sangue (7,4), água do mar, leite de magnésia, amoníaco

Atenção: cada unidade de pH corresponde a uma variação de 10 vezes na concentração de H+. Uma solução de pH 3 é 10 vezes mais ácida que uma de pH 4 e 100 vezes mais ácida que uma de pH 5.

Exemplos rápidos: uma solução de HCl 0,01 mol/L (ácido forte, ionização praticamente total) tem [H+] = 10−2 mol/L, logo pH = 2. Uma solução de NaOH 0,001 mol/L tem [OH−] = 10−3 mol/L, logo pOH = 3 e pH = 14 − 3 = 11.

Ácidos e bases fracos: Ka, Kb e a lei de Ostwald

Ácidos fracos se ionizam pouco e formam um equilíbrio. Para o ácido acético, presente no vinagre:

CH3COOH(aq) ⇌ H+(aq) + CH3COO−(aq)     Ka = [H+] · [CH3COO−] / [CH3COOH]

Quanto maior o Ka, mais forte o ácido. O mesmo vale para bases fracas e o Kb. Para eletrólitos fracos, a lei da diluição de Ostwald relaciona a constante com o grau de ionização (α) e a concentração (M): Ka ≈ α2 · M. Ou seja, quanto mais diluída a solução, maior o grau de ionização.

Exemplo: ácido acético 0,1 mol/L, com Ka = 1,8 × 10−5. Como [H+] ≈ √(Ka · M) = √(1,8 × 10−6) ≈ 1,3 × 10−3 mol/L, o pH fica perto de 2,9 e apenas cerca de 1,3% das moléculas estão ionizadas. Um HCl de mesma concentração teria pH 1.

Soluções-tampão são misturas de um ácido fraco com seu sal (ou de uma base fraca com seu sal) que resistem a variações de pH. O exemplo mais importante está no nosso corpo, como você vê em O sistema tampão do sangue humano.

4. Solubilidade dos sais e hidrólise

Produto de solubilidade (Kps)

Quando um sal pouco solúvel é colocado em água, forma-se uma solução saturada com corpo de fundo, e se estabelece um equilíbrio heterogêneo entre o sólido e seus íons. Para o cloreto de prata:

AgCl(s) ⇌ Ag+(aq) + Cl−(aq)     Kps = [Ag+] · [Cl−]

O sólido não entra na expressão. Chamando de s a solubilidade em mol/L, temos [Ag+] = [Cl−] = s, então Kps = s2. Com Kps = 1,8 × 10−10 a 25 °C, s ≈ 1,3 × 10−5 mol/L. Para sais com outras proporções, os expoentes mudam: no CaF2, [Ca2+] = s e [F−] = 2s, então Kps = s · (2s)2 = 4s3.

  • Se o produto das concentrações dos íons for menor que o Kps, a solução não está saturada e ainda dissolve mais sal.
  • Se for igual, a solução está saturada.
  • Se for maior, ocorre precipitação até o produto voltar ao valor do Kps.

Efeito do íon comum: adicionar um íon que já participa do equilíbrio desloca-o para o lado do sólido e diminui a solubilidade. O AgCl, por exemplo, é muito menos solúvel em água com NaCl do que em água pura. Para revisar o conceito geral, veja Por que a solubilidade em Química é importante.

Hidrólise salina: por que um sal pode deixar a água ácida ou básica

Um sal dissolvido libera cátions e ânions. Os íons que vêm de um ácido fraco ou de uma base fraca reagem com a água, liberando OH− ou H+. Essa reação é a hidrólise. A regra prática: quem hidrolisa é o íon fraco, e o meio fica com o caráter do mais forte.

Origem do sal Exemplo Quem hidrolisa Meio
Ácido forte + base forte NaCl, KNO3 nenhum íon neutro (pH = 7)
Ácido forte + base fraca NH4Cl cátion NH4+ ácido (pH < 7)
Ácido fraco + base forte CH3COONa, NaHCO3, Na2CO3 ânion básico (pH > 7)
Ácido fraco + base fraca NH4CN, CH3COONH4 cátion e ânion depende de Ka e Kb

Veja os dois casos mais cobrados:

NH4+ + H2O ⇌ NH3 + H3O+  (meio ácido)
CH3COO− + H2O ⇌ CH3COOH + OH−  (meio básico)

A constante de hidrólise se calcula por Kh = Kw / Ka (para ânions de ácido fraco) ou Kh = Kw / Kb (para cátions de base fraca). É por hidrólise que o bicarbonato de sódio funciona como antiácido e que o sulfato de alumínio, usado no tratamento de água, deixa o meio levemente ácido.

5. Fatores que alteram o sistema em equilíbrio

O princípio de Le Chatelier diz que, quando um sistema em equilíbrio sofre uma perturbação, ele se desloca no sentido que diminui o efeito dessa perturbação, até atingir um novo equilíbrio. Veja o resumo:

Perturbação Deslocamento Muda o valor de K?
Adicionar um reagente (ou retirar um produto) no sentido dos produtos Não
Adicionar um produto (ou retirar um reagente) no sentido dos reagentes Não
Aumentar a pressão (diminuir o volume) para o lado com menos mols de gás Não
Diminuir a pressão (aumentar o volume) para o lado com mais mols de gás Não
Aumentar a temperatura no sentido endotérmico (absorve calor) Sim
Diminuir a temperatura no sentido exotérmico (libera calor) Sim
Adicionar catalisador não desloca; o equilíbrio só é atingido mais rápido Não

Três observações que valem pontos:

  • A pressão só desloca equilíbrios com gases e com número de mols gasosos diferente dos dois lados. Em H2 + I2 ⇌ 2 HI (2 mols de cada lado), mudar a pressão não desloca nada.
  • Adicionar um gás inerte a volume constante não altera as concentrações dos participantes e, portanto, não desloca o equilíbrio.
  • Sólidos e líquidos puros adicionados não deslocam o equilíbrio, porque não aparecem na expressão de K.

Exemplo da síntese de Haber-Bosch: N2(g) + 3 H2(g) ⇌ 2 NH3(g), ΔH = −92 kJ. São 4 mols de gás nos reagentes e 2 nos produtos, então alta pressão favorece a amônia. Como a reação direta é exotérmica, baixa temperatura também favorece a amônia. Retirar a NH3 à medida que se forma desloca o equilíbrio ainda mais para a direita. Para entender melhor o princípio, leia Descubra a importância do princípio de Le Chatelier.

6. Velocidade e equilíbrio: duas perguntas diferentes

A cinética responde “quão rápido?”. O equilíbrio responde “até onde?”. Uma reação pode ter K enorme e, mesmo assim, ser lentíssima, como a queima do papel à temperatura ambiente. Os fatores que aumentam a velocidade de uma reação são:

  • Temperatura: mais partículas com energia suficiente para superar a energia de ativação.
  • Concentração (ou pressão, para gases): mais colisões por segundo.
  • Superfície de contato: sólidos triturados reagem mais rápido do que em pedaços.
  • Catalisador: oferece um caminho com menor energia de ativação. Como ele acelera igualmente as reações direta e inversa, o equilíbrio chega mais cedo, mas no mesmo ponto.

O processo Haber-Bosch mostra bem o conflito entre os dois: baixa temperatura favorece o rendimento, mas deixa a reação lenta demais. Por isso a indústria usa uma temperatura de compromisso (cerca de 400 a 500 °C), pressões altas (da ordem de 150 a 300 atm) e catalisador à base de ferro. Para revisar a parte de velocidade, leia a Introdução à Cinética Química.

7. Velocidade e equilíbrio no cotidiano

Situações de velocidade das reações

  • Geladeira e freezer: a baixa temperatura desacelera as reações de decomposição dos alimentos e a ação de micro-organismos.
  • Panela de pressão: a água ferve acima de 100 °C, e o cozimento fica mais rápido.
  • Comprimido efervescente: dissolve mais rápido em água morna e quando está triturado (maior superfície de contato).
  • Lenha e palha de aço: gravetos pegam fogo antes de toras; a palha de aço queima facilmente, ao contrário de um prego.
  • Catalisadores automotivos e enzimas: aceleram reações específicas, como a conversão de CO em CO2 no escapamento e a digestão dos alimentos no corpo.

Situações de equilíbrio químico

  • Refrigerante: CO2(g) ⇌ CO2(aq). Ao abrir a garrafa, a pressão cai e o equilíbrio se desloca para a saída do gás. No calor, o refrigerante perde gás mais rápido, porque a dissolução de gases é exotérmica.
  • Sangue: o tampão CO2 + H2O ⇌ H2CO3 ⇌ H+ + HCO3− mantém o pH entre 7,35 e 7,45. Respirar muito rápido elimina CO2, desloca o equilíbrio para a esquerda e eleva o pH (alcalose).
  • Altitude e hemoglobina: Hb + O2 ⇌ HbO2. Em grandes altitudes, há menos O2, o equilíbrio se desloca para a esquerda e surge o cansaço. Com o tempo, o organismo produz mais hemoglobina para compensar.
  • Cáries e flúor: o esmalte dos dentes é hidroxiapatita, Ca5(PO4)3OH(s) ⇌ 5 Ca2+ + 3 PO43− + OH−. Ácidos produzidos pelas bactérias consomem OH−, deslocam o equilíbrio para a direita e desmineralizam o dente. O flúor forma a fluorapatita, mais resistente aos ácidos.
  • Casca dos ovos no verão: no calor, as galinhas ofegam e eliminam mais CO2. Isso reduz a formação de íons carbonato (CO32−), e menos CaCO3 é depositado na casca, que fica mais fina.
  • Estalactites e estalagmites: CaCO3(s) + CO2 + H2O ⇌ Ca2+ + 2 HCO3−. Quando a água goteja no teto da caverna e perde CO2, o equilíbrio volta para a esquerda e o calcário se deposita lentamente.
  • Calagem do solo: agricultores adicionam calcário (CaCO3) a solos ácidos; o carbonato consome H+ e eleva o pH, deixando nutrientes mais disponíveis para as plantas.

Questões resolvidas

1. Considere o equilíbrio 2 SO2(g) + O2(g) ⇌ 2 SO3(g), com ΔH < 0. Quais alterações aumentam o rendimento de SO3?

Resolução: há 3 mols de gás nos reagentes e 2 nos produtos, então aumentar a pressão favorece o SO3. A reação direta é exotérmica, então diminuir a temperatura também favorece. Adicionar O2 ou retirar SO3 desloca o equilíbrio para a direita. O catalisador (V2O5, na indústria) não aumenta o rendimento; apenas faz o equilíbrio ser atingido mais rápido.

2. Três frascos contêm soluções aquosas de NaCl, NH4Cl e Na2CO3, todas com a mesma concentração. Coloque-as em ordem crescente de pH.

Resolução: o NH4Cl vem de ácido forte (HCl) e base fraca (NH3): o cátion NH4+ hidrolisa e o meio fica ácido. O NaCl vem de ácido e base fortes: meio neutro. O Na2CO3 vem de ácido fraco (H2CO3) e base forte (NaOH): o ânion CO32− hidrolisa e o meio fica básico. Resposta: NH4Cl < NaCl < Na2CO3.

Resumo rápido

  • No equilíbrio, vdireta = vinversa e as concentrações ficam constantes, mas não necessariamente iguais.
  • Kc = produtos sobre reagentes, elevados aos coeficientes; sólidos e líquidos puros ficam de fora.
  • K > 1 favorece produtos; K < 1 favorece reagentes. K só muda com a temperatura.
  • Kw = [H+] · [OH−] = 10−14; pH = −log [H+]; pH + pOH = 14 (a 25 °C).
  • Maior Ka, ácido mais forte. Lei de Ostwald: Ka ≈ α2 · M.
  • Kps mede a solubilidade de sais pouco solúveis; o íon comum diminui a solubilidade.
  • Hidrólise: o íon fraco reage com a água, e o meio fica com o caráter do mais forte.
  • Le Chatelier: o sistema reage contra a perturbação. Catalisador não desloca o equilíbrio.
  • Cinética diz quão rápido; equilíbrio diz até onde.

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