O caso amoroso desvendado pela Química

Carta Maria Antonieta Capa

Inquestionavelmente, a Química é usada em toda a história a favor ou contra a humanidade. Não é muito raro encontrar termos assim a Química acabou com o seu cabelo, a Química prejudica a qualidade da comida. O caso que vou contar aqui trata-se do uso da Química para esconder uma paixão extraconjugal.

Essa é a história de Maria Antonieta, esposa de Luís XVI e a última rainha da França antes da Revolução Francesa, e seu suposto amante, o conde sueco Hans Axel von Fersen. Historicamente, Maria Antonieta era uma rainha que se tornou cada vez mais impopular entre o público quando os ‘libelles’ franceses (panfletos políticos) a acusaram de ser excessivamente extravagante, promíscua, de abrigar favores dos inimigos da França (incluindo sua Áustria natal) e ter filhos ilegítimos. A rainha ao longo de seu reinado caiu em conflito com a opinião popular e foi condenada por alta traição e executada na guilhotina a pedido de um Tribunal Revolucionário em 16 de outubro de 1793.

De acordo com o historiador Evelyn Farr, Maria Antonieta mantinha correspondência com o Von Fersen cuja última acusação que ela recebeu era considerada injusta pois a rainha negava ter um caso amoroso com o conde. Para Evelyn Farr, Maria Antonieta mantinha o caso com o conde há pelo menos 20 anos o que resultaria no nascimento de sua filha mais nova, Sophie, e de seu filho Louis-Charles.

Maria Antonieta conde-Hans-Axel-von-Fersen.
Rainha Maria Antonietaconde Hans Axel von Fersen

 

As correspondências trocadas entre 1791-92 por Maria Antonieta e o conde foram censuradas no início da Revolução Francesa o que intrigou o historiador por 150 anos. A gora, especialistas do Centre de Recherche sur la Conservation (CRC) de Paris conseguiram distinguir entre as tintas usadas nas redações e as do texto subjacente.

Carta Maria Antonieta
Uma carta de Maria Antonieta para o conde Von Fersen datada de 4 de janeiro de 1792, com as redações mostradas à esquerda e as restaurações dos pesquisadores sobrepostas à direita

Para descobrir a escrita por trás das redações – redemoinhos apertados de rabiscos escuros complicados pela adição de letras extras para confundir o leitor – os pesquisadores usaram um método chamado espectroscopia de fluorescência de raios X (XRF).

Fluorescência de raios X
Equipamento de Fluorescência de raios X (FRX)

O scanner XRF direciona os raios X para a imagem, excitando os átomos que estão presentes na tinta, que então emitem comprimentos de onda únicos que permitem aos pesquisadores identificar quais átomos estão presentes em cada pixel. Eles puderam, então, criar uma série de imagens nas quais os pixels são preenchidos apenas se um determinado comprimento de onda de elementos químicos específicos.

Imagine que você tenha escrito a palavra “amor” com uma tinta feita exclusivamente de cobre e, em seguida, rabiscou sobre ela com uma tinta feita exclusivamente de ferro. Ao escanear o papel o equipamento duas vezes uma para o ferro e outra para o cobre. A partir dos resultados das imagens, o software é capaz de produzir um monte de rabiscos relativos em duas partes: uma relativa ao cobre e outro ao ferro. Essa separação possibilita descobrir que você escreveu a palavra amor.

Claro, esse é um exemplo altamente é bastante simples pois as cartas estudadas foram escritas com tintas que continham uma combinação de elementos. Estrategicamente, os pesquisadores buscaram em seu estudo diferenças nas proporções de cobre para ferro e zinco para ferro.

Como resultado dessa estratégia, os pesquisadores descobriram que algumas das redações eram apenas palavras como “amour” ou “love”, e algumas delas eram frases como “ma tendre amie” ou “meu terno amigo”. Alguns eram ainda mais longos, como “pour le bonheur de tous trois”, que se traduz em “para a felicidade de todos os três” e “non pas sans vous”, que se traduz em “não sem você”.

Resultado do estudo das cartas de maria antonieta
Um dos resultados do estudo das cartas de Maria Antonieta

Deve ser mencionado que a estratégia usada no estudo não funcionou na recuperação da escrita censurada em sete dos documentos. Isso porque as tintas usadas na escrita tinham uma composição muito semelhante, tornando “impossível” ler as palavras subjacentes, escrita pelos seus autores.

Uma pergunta a ser feita é quem rabiscou as cartas?

O sentido dessa pergunta se ao fato de que se os autores rabiscassem as cartas, eles usariam a mesma tinta, mas o estudo mostrou que foram usadas tintas diferentes nas cartas. A principal hipótese é que o rabiscador das cartas seja provavelmente alguém da família do conde Von Ferson com a intenção de preservar sua reputação. O principal suspeito de rabiscar as cartas está no sobrinho neto do conde Von Ferson.

Mas quando os pesquisadores analisaram ainda mais a tinta das redações, eles descobriram uma história diferente. Com a análise da caligrafia, eles primeiro descobriram que muitas das cartas supostamente escritas por Antoineta eram na verdade cópias de suas cartas escritas por Von Fersen.

Na época, copiar cartas era uma prática comum para manutenção de registros, mas ele também poderia copiá-las por motivos políticos. Se as cartas de Antonieta tivessem sido criptografadas, Von Fersen pode tê-las copiado ao decodificá-las. Em tempos de crise, como no período da Revolução Francesa, a proteção dos autores, principalmente Maria Antonieta era importante. A afirmação dos pesquisadores tem como base a comparação feita entre as tintas usadas por Von Fersen com as tintas de redação e descobriram que a composição da tinta de redação era a mesma que a de escrever em outra carta.

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Um fato não está claro! Por que Von Fersen teria optado por redigir e manter essas cartas em vez de se livrar delas? Uma hipótese que poderia ser dita é que manter as cartas seria importante para o Von Fersen por razões sentimentais ou por estratégias políticas.

Os resultados extraordinários obtidos pelos autores, permitiram a eles afirmar que a metodologia desenvolvida permitirá fornecer uma nova maneira de revelar o segredo de outras escrita além de avançar na Química forense.

Fonte:

Dialy mail

Live Science

New Scientist

Science Advances

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