A importância da estereoquímica nos remédios

Quando vamos comprar um determinado remédio nas farmácias, pensamos somente em acabar com aquela dor e voltamos a ter uma vida feliz. Nem imaginamos que o comprimido que estamos tomando passou por uma série de testes. Dentre os quais iremos destacar neste post a isomeria; ou seja, o arranjo espacial determina se uma molécula ativa ou não.

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Dependendo da isomeria espacial uma determinada molécula pode salvar vidas ou matar. Isso ocorre geralmente para aquelas substâncias que possuem a mesma fórmula molecular, mas isomeria espacial diferente. Substâncias com essa característica são conhecidas como isômeros, no caso de isomeria espacial diferentes, são classificados como estereoisômeros. Uma questão interessante dos esterioisômeros, é que eles podem apresentar ou não atividade ótica.

Os isômeros geométricos são estereoisômeros que não apresentam atividade ótica; essas substâncias são incapazes de desviar o plano da luz polarizada. Todavia, esses isômeros possuem imagens especulares entre si que podem ser sobrepostas. Essas substâncias são denominadas de quirais. Especialmente, no caso de vários fármacos a quiraliadade é muito importante. Isso porque muitas das reações que ocorrem no nosso organismo dependem da geometria espacial das moléculas. Deixando de lado as siglas SS, RR, (+) e (-) percebe-se na tabela abaixo que a geometria espacial muda o efeito dos fármacos.

Fármaco

Efeito

etambutol

forma SS: tuberculostático

 

forma RR: pode provocar cegueira

penicilamina

forma S: anti-artrítico

 

forma R: extremamente tóxico

estrona

forma (+): hormônio estrogênico

 

forma (-): inativo adrenalina a forma levógira é 20 vezes mais ativa e igualmente mais tóxica

talidomida

forma R: sedativo

 

forma S: teratogênico

salbutamol

forma R(-) é 80 vezes mais ativo que a forma S(+)

bupivacaína

forma (±): ambos os isômeros possuem atividade anestésica local, mas apenas o isômero (-) apresenta ação vasoconstritora, prolongando assim a ação anestésica local

anfetamina

a forma dextrógira é 2 vezes mais ativa que o enantiômero (-)

indacrinona

forma (+): ação diurética e retenção do ácido úrico forma (-): efeito uricosúrico

clorfeniramina

a atividade anti-histamínica é devida essencialmente à configuração S(+)

Isso não impede que muitos fármacos quirais fossem licenciados e comercializados como misturas racêmicas (Tabela abaixo).

Cardiovasculares

Sistema Nervoso Central

Antiinflamatórios e Analgésicos

Outros

Atenolol

Dobutamina

Cicloprofeno

Antivirais

Bisprolol

Meclizina

Corticoesteróides

Hormônios

Bufuralol

Toloxaton

Fenoprofeno

Terfenadina

Indenolol

Tomoxetina

Ketoprofeno

Astemizol

Sotalol

Lorazepan

Flurbiprofeno

Metaproteranol

Verapamil

Tomoxetina

Esteróides

Ciclobutirol

Nitrendipina

Ketamina

Corticoesteróides

Ciclopentolato

Cravedilol

Zoplicona

Pirprofeno

Albuterol

 

Recomenda-se que o emprego de fármacos enantiomericamente puros representa maior segurança e eficácia terapêutica. Entretanto, devido à complexidade de fatores que regulam a fabricação um medicamento, outros variáveis devem ser levadas em conta, como componentes econômicos que viabilizem a produção de drogas com perfil baixo custo, baixa toxicidade, produção em larga escala e alta lucratividade, fórmula ideal da indústria farmacêutica moderna, entre outros que estão muito além da isomeria das substâncias farmacológicas.

Referências

Barreiro, J. B. Substâncias enantiomericamente puras (Sep): A questão dos fármacos quirais. Química Nova, v. 20, n. 6, p. 647-656, 1997.

Lima, L. E. L. Os fármacos e a quiralidade: Uma breve abordagem. Química Nova, v. 20, n. 6, p. 657-663, 1997.